domingo, 31 de outubro de 2010

A fé não costuma faiá!

31 de outubro de 2010

Meu Bahêa continua ganhando fora de casa e agora está colado no Coritiba. Jogaremos contra eles na terça, casa cheia, e eu aqui. Podemos ser líderes Biu!!!!! Torça por mim também no caldeirão! E olha a estrela de prata pintando na área!!!!!
Apesar do processo eleitoral morno, hoje o Brasil pode ter a sua primeira presidente mulher (não é “presidenta” gente, por favor). Ou dizer não a mais uma fase de continuismo. Essa hipótese acho menos provável acontecer. Meu Deus, quantos momentos históricos na minha terra, e como é grande a minha vontade de participar fisicamente disso. Mas como diz Cissa, alguma questão eu precisava resolver em Angola, mais precisamente em Mbanza Kongo.
Ok, volta para a realidade Heitor!  Você não está em Salvador, está em Mbanza Kongo.
A semana aqui passou tranquilo. O trabalho e as tantas coisas para arrumar não deram espaço para uma análise mais apurada sobre a cidade, sua estrutura, seu funcionamento. Mas o final de semana bastou para eu chegar a algumas constatações.
Primeiro descobri que não falta luz todo o dia como eu pensava. Ou melhor falta. Mas é esperado, calculado. Aqui tem fornecimento de energia, mas vem de gerador. E quando acaba o diesel, falta luz até o responsável pela Coelba daqui trocar de gerador (são três). Só que as coisas e as pessoas daqui têm um jeito meio pojucano de ser. As vezes o cara dorme, as vezes dá uma saidinha. Aí você fica no escuro até ele voltar. Que negócio! A Coelba de Mbanza Kongo fica bem do lado do hotel onde estou morando por enquanto. Aliás, aqui só tem esse. Ouço o tempo todo o barulho do gerador iluminando a cidade. Quando não ouço, faltou luz. Genial!
Por falar no Hotel Estrela do Kongo, preciso apontar algumas curiosidades. Logo na fachada tem um letreiro com o nome do equipamento turístico e duas estrelas, não sei quem perdeu elas aqui. Ainda bem que não são as do Bahia!!!!! Só o impacto da falta de luz já gera uns desconfortos – o ar condicionado desconfigura, a antena parabólica desconfigura. Agora, por exemplo, estamos sem Globo e sem Record. Não posso ver ao vivo o resultado das eleições. Se a internet continuar boa, ótimo. Caso contrário, vou dormir com um presidente e acordar sem saber quem vai capitanear o Brasil.... chato isso. Mas estou na África.
Me colocaram no térreo, no quarto 8. Henrique está no 9 e Cleber pediu para ficar no piso de cima, no 21. São 10 em baixo, 12 em cima. Na primeira noite, escrevia para o blog e um calunguinha entrou por debaixo da porta. Botei ele para correr. Henrique disse que ele passou lá também. Pedi para subir no outro dia. Nunca tive medo de rato, mas tomo cada susto da porra! Odeio susto! Cissa também tem pavor de susto. Subi. Aqui em cima a porta é mais rente ao chão.
Meu colega Henrique disse que todo dia o rato vai lá! E come tudo que fica fora da geladeira! Ontem estava em cima da mesa, no teclado do notebook. Deveria estar teclando com algum colega, em algum lugar do mundo. Talvez o Mickey..... ou o Super Mouse.... Quando falei para o gerente ele disse: “professor, colocamos veneno, mas estamos em comunidade! Estamos a matar tantos, mas muitos outros aparecem cá! Não há jeito para esses ratinhos, ya!”. Lógica angolana.  Quem já teve o prazer de se hospedar no Hotel Pena, a estrutura daqui é um pouquinho melhor.

O hotel
Hoje acordei, tomei o pequeno almoço, ou mata bicho (café da manhã), calcei o tênis e fui para a rua. Queria corrrer, mas estava muito quente e preferi caminhar. Fui de um lado a outro da rua principal. Mbanza Kongo tem uma parte muito pobre que fica em um vale lindo, que ainda conserva muito verde. Mas a paisagem já começa a dividir espaço com o vermelho do massapê e das casas de adobe, que são tijolos grandes, feitos artesanalmente e localmente com a própria argila vermelha. Tudo desordenado. Subindo uma das ladeiras de barro, se chega a parte urbanizada, em cima de um morro. Cissa e Kau podem visualizar fácil – a periferia está em um espaço como o Vale do Paty, em um buraco, e os Gerais do Vieira seriam a área arrumadinha da cidade, no alto.

O vale

Pois bem, essa rua larga, de pista dupla, com um canteiro no meio, vai do mercado Nosso Super até o prédio da prefeitura, que fica em frente à governadoria. Nosso Super é uma rede nacional, era gerida pela Odebrecht. Mas agora é da filha do presidente. A família é dona de quase tudo aqui. Semelhanças não são mera coincidência. O poder é degrau para a fortuna em muitos lugares, não podemos criticar, nossa história também tem “rabo preso”.
Na frente do prédio onde o governador trabalha tem um busto de Agostinho Neto, figura política importante, primeiro presidente, e duas fontes com bonitas esculturas de mulheres. As fontes estão sem água.
Entre uma ponta e outra tem bancos, uma praça com um monumento aos heróis da guerra, o hotel, uma igreja católica grande, uma Batista, uma Universal, Corpo de Bombeiros. Tem um clube bem grande, que parece ser legal. Será reinaugurado em 11 de novembro, dia da independência, após muitos anos fechados por conta da guerra. Estava destruído, mas os chineses estão a todo gás na obra. Também tem muitos prédios públicos, acho que quase todos. Angola Telecom, Departamento de imigração, comando da polícia, a Coelba e a Embasa de Angola.
Na rua principal tem a ruína da primeira igreja católica da África, parte do patrimônio histórico e cultural tombado recentemente pela Unesco. Descobri que o Papa João Paulo II esteve em Mbnza Kongo. Ele deve ter vindo de avião. De Papamóvel ele não veio! Essa ruína fica no mesmo sítio histórico onde estão sepultados os reis e o imperador do Congo. Hoje inclusive tinha uma equipe de TV espanhola gravando um documentário lá.
Patrimônio histórico cultural UNESCO
O aeroporto está na rua de trás. Onde também está a nossa casa. Defronte fica a casa do governador. Segurança total. Essa via paralela à principal tem muitas residências oficiais e civis. Fica também a Universidade.
Governadoria
Aqui não tem violência. Não tem assalto, não tem pedinte. Os carros ficam com vidros abertos na rua. As pessoas se cumprimentam quando cruzam com outras pela rua.  Típico de uma cidade pequena.
Mas uma coisa me chamou muito a atenção hoje. A religiosidade dessa gente é uma coisa impressionante. A igreja católica tava socada. Estava tendo primeira comunhão. Os mais velhos estavam lindos! Um turbilhão de cores, muito bonito de se ver. Cantos estilo“capela” na missa e fora da igreja atabaques e agogôs me pareceram tão familiares! Mas eles cantavam e dançavam regidos pela fé católica. A “lenda” vai cair por terra. Ou pelo menos parte dela. Vocês vão ver. A história não é bem assim como contam aí. Faltam poucas peças.
O legal é que a igreja católica é vizinha, colada com a batista. As cores também estavam nas roupas daquelas pessoas. O que me chamou a atenção foi a placa na entrada que dizia: “Culto dominical – 10h em Kikongo, 11h em Português”. Kikongo é a língua nacional do norte de Angola, falada nas províncias de Cabinda, Zaire e Uige. Os hinos em Kikongo emocionam. O coral é um espetáculo. Como diz um conhecido, domingo que vem “vou botar uma calça comprida” e vou assistr ao show.
A Universal, com todo respeito, foi onde senti mais frieza. Mas também não parei muito tempo para observar.
Mas independente da crença, deu para perceber que a religiosidade está aqui. E o povo vive isso intensamente. Cada um na sua. Pelo menos por intolerância religiosa não se briga em Mbanza Kongo.

Um comentário:

  1. Heitor,

    Como andam as coisas? Como blogueiro iniciante você está indo muito bem. Ainda não li a parte onde você explica qual foi o projeto que te levou para a África, mas imagino que o desafio vale a pena.

    Te desejo boa sorte e de vez quando dou uma passada por aqui para ver as novidades e fazer uns comentários.

    abraços, se cuida, sucesso e fica com Deus,

    André Boavistta

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