sábado, 23 de outubro de 2010

Batizado no trânsito

22 de outubro de 2010
Finalizamos o treinamento. O almoço foi no Belas e fui a um instituto em Kilamba Kiaxi. A noite, tentativa de churrasco na casa do chefe, que tá servindo de albergue para os colegas que chegaram uma semana antes. O pessoal começa a ser distribuído para as províncias no sábado, amanhã. Tentativa de fazer um evento para fechar o treinamento e desejar boa sorte para todos.
A noite fui na Emirais, uma academia enorme daqui. Acho que a melhor e maior. Fui, visitar a Roger Gracie Academy Angola. Prá quem não conhece, Roger Gracie é um dos lutadores de Jiu Jitsu mais vencedores de todos os tempos. Roger é um competidor diferenciado, técnico, finalizador. Não luta para fazer pontos, luta para finalizar. E vem fazendo um trabalho muito legal de expansão da sua academia, que tem sede em Londres. O responsável pela RGA Angola é Sensei Hélio, um angolano gente fina, que dá aulas de Jiu Jitsu em dois espaços em Luanda. A Emirais fica na rua onde estou hospedado. Assim é fácil treinar...  Na academia tem americano, libanês, português, angolano, pernambucano, paranaense, cearense. Dei um treino com a rapaziada lá. Muito bom!!! Jiu Jitsu de primeira! Na melhor escola da Arte Suave do mundo, a Gracie Jiu Jitsu!!!! 
Depois do treino na Roger Gracie Academy - Angola

  23 de outubro
Acordei e fui ao centro de Luanda, tentar fazer uma remessa de valor para o Brasil. Hoje foi o dia de conhecer o trânsito de Luanda. Até então tinha ficado preso no engarrafamento, mas em pequenos trechos. Hoje foi a estréia. Três horas para vencer menos de 20 Km até o centro. Lembrei da meia maratona do Rio. Se fosse correndo chegava antes. Não muito. Mas chegava.
Fiz um cadastro na Real Transfer, o que vai facilitar bastante o envio de dinheiro para o Brasil. Não sei se no Zaire tem, mas em Luanda funcionou e foi bem simples. Voltei para Nova Vida, onde fica a casa de passagem da empresa. Almoço no Belas e aproveitei para fazer umas compras no Shoprite, supermercado legal lá do shopping.
Hoje aprendi que aqui ônibus é auto-carro. Garupa de moto é pendura. Mototaxi é cupapatas. Agora você imagine, as bibas de Pojuca andando todas de Cupapatas...... hahaha muito engraçadas essas diferenças na língua. Van é candonga. Hoje as curiosidades da língua foram basicamente sobre trânsito. Basicamente.
Isso porque falei que ficamos presos no trânsito três horas. Era natural que com tanto carro, moto (que aqui é mota), ônibus, van, gente pela rua, a conversa girasse muito em torno disso. Só que teve um detalhe...
O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, fez um discurso esses dias na Assembleia e isso motivou o MPLA (seu partido) a mobilizar um mundo de gente para fazer um movimento tipo passeata, para demonstrar apoio ao discurso dele. Apoio ao discurso, nunca vi isso. Nosso carro ficou barrado e fomos obrigados a assistir a manifestação todinha. Até o final. Gente que não acabava mais. Ver as mulheres da OMA (Organização das Mulheres Angolanas) em seus trajes marcantes e com o típico lenço amarelo na cabeça foi bem forte. Principalmente porque muitas delas carregavam bebês nas costas, amarrados por um pano. Isso aqui é muito comum. Como se fosse um canguru ao contrário. Isso aqui tem demais. E eles dormem que é uma beleza nessa posição de mochila...  
Nem precisa dizer que lembrei de Cissa. Fiz as minhas comparações desse movimento político com nossas vivências na área.... Deus é mais. Mas isso vai acabar, ah vai! Lembrei de Ney. Impossível ver aquela militância apaixonada e não linkar imediatamente com meu amigo de trincheira.
Mas foi bonito ver essa manifestação de amor pelo presidente. Aqui, ele é o cara... anos no poder... 
 
Muçulmanos apoiando o presidente

Delegação MPLA de Viana, município de Luanda
Hoje lembrei de mais alguns personagens. De uns lembrei enquanto conversava com Cissa pela net. Vamos lá....  
Esses dias todos tenho lembrado do meu sogro, o velho Clarindo. Na verdade penso nele sempre que vejo como aqui existem diferenças sociais. Meu sogro é um cara simples (até demais), mas tem um coração de cavaleiro. Veio a esse mundo para servir e tem uma sensibilidade enorme em relação às questões sociais incrível. Para não dizer que não falei da velha, lembrei dela HOJE, quando vi uma propaganda de uma cerveja local chamada ECA. Imaginem a Sogra Coral bebendo uma cervejinha chamada Eca.... “que merda de cerveja, merda de Eca!”
Já que estamos falando daa velha guarda, lembrei e falei de meu Vô Ferrari e de minha Vó Carminha. Encontrei um pernambucano hoje no carro, disse a ele que meu avô jogou no Sport. E o cara falou que jogou na divisão de base do rubro negro pernambucano também. Foi goleiro. E o cara fala como minha Vó, que mesmo depois de tantos anos na Bahia, ainda deixa escapar um “tumate”, uma “tumada”.
Mas agora queria falar um pouco sobre meu Vô Heitor. Apesar do amor incondicional que Vó Nancy tinha por mim (e não fazia a mínima questão de esconder de ninguém) eu tive e tenho uma ligação muito forte com o velho Heitor Marback. Tinha com ela também. Mas o velho era demais!!!!Dividimos muitos momentos legais. Vivi instantes únicos com ele. Admiro demais o meu avô. Aliás, eu só não, acho que ele é um dos caras mais amados que tenho conhecimento.
Logo de cara, quando vejo as diferenças absurdas entre ricos e pobres, e os malabarismos do comércio informal de Angola, onde se vende de tudo, na rua, lembro que ele ficava sempre muito intrigado com as mais variadas formas de se ganhar a vida. Penso nele todos os dias. E acho que irei continuar pensando. As diferenças aqui são gritantes. Mas a galera se vira!
Meu Vô Heitor era um cara muito culto. E tinha uma simpatia enorme por Portugal e suas coisas. Inclusive tinha amigos portugueses. Visitar o centro de Luanda hoje foi muito bom, vi construções em estilo europeu. E lá, a influência de Portugal está em todos os prédios mais antigos. Lembrei que meu avô sempre comentava sobre as origens das mais variadas coisas e hábitos, inclusive as mais esquisitas e dizia “isso veio de Portugal”. Acho até que quando perguntávamos sobre alguma coisa ou costume e ele não sabia, dizia logo: “veio de Portugal”.
As angolanas têm bunda grande. Algumas até demais. Uma vez, pegando uma carona com meu avô para ir a aula, passou uma mulata da bundona, e ele com toda a sua educação e sagacidade falou “quanta abundância meu filho!”. Impossível não lembrar dele aqui.
Vou parando por aqui. Vou ouvir o meu Bahia dar uma porrada no Asa de Arapiraca. Bora Bahêa!!!!!! Aí é crueldade... Não tem como não lembrar de Henrique e sua paixão desmedida pelo tricolor de aço.... vamos subir esquadrão!!!!!!!!


Um comentário:

  1. Amigo Heitor,

    Achei fantástica a sua iniciativa de compatilhar com a gente sua experiência de vida em terras distantes. Espero que você tenha tempo e disposição para nos dar notícias suas. Quanto ao trânsito, tivemos um dia de caos há pouco tempo, devido a fortes chuvas. Assim, creio que temos uma noção de como seja o transtorno nas ruas de Angola. O Bahia, ah, o Bahia... Como já falei antes no facebook, fui com uns amigos ver o último resultado (5x1) e a torcida continua esperançosa e apoiando o time, lotando o estádio de Pituaçu! Tomara você não abandonar os treinos e encontre um tempo na sua agenda para correr! Abraço!

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